A expressão de um movimento

Com o desejo de desenvolver arte além do ego, o artista plástico e grafiteiro Thiago Furtado quer que suas criações sejam parte da representação dos movimentos culturais de Florianópolis.

Valdi-Valdi em frente a um de seus murais. Como legítimo representante do grafite, a maior parte de seu trabalho encontra-se ao ar livre.

Um jovem com spray na mão pintando uma renda – tradicional artesanato da capital catarinense – em uma faixa de pedestres no centro da cidade. A cena aconteceu em meados do ano passado, quando Thiago Furtado, conhecido pelo apelido Valdi-Valdi, participou do projeto Arte na Faixa. Trata-se de um conjunto de intervenções artísticas que pretende chamar a atenção de pedestres e motoristas para o uso correto da sinalização de segurança. “A ideia era criar uma renda urbana, trazendo essa mistura de street art com a cultura local”, diz Thiago.

Essa frase sintetiza boa parte do que ele busca com seu trabalho. Não é raro ouvi-lo falar em fazer arte além do próprio ego. “A ideia é que minhas criações sejam abraçadas por toda uma comunidade como sendo parte de sua cultura, a ponto de as pessoas se sentirem representadas”, explica.

Essa busca por identidade é própria do grafite, movimento artístico ao qual Valdi-Valdi está inserido há mais de dez anos. No início, não se identificava tanto com a técnica; por vezes, via-a como mera reprodução da estética norte-americana. Aos poucos, passou a entender que poderia fazer diferente, e expressar a cultura local através da arte urbana.

No entanto, para fazer isso, precisou expandir seus conhecimentos, e mergulhou nos estudos da história local e os hábitos do povo. Durante esse processo, encantou-se com a relação das pessoas com o mar. Diversas obras dele exploram ondas, tonalidades azuis e animais marinhos. Outro elemento muito presente é a figura humana, principalmente mulheres. Tudo é harmonizado em traços fluidos, ricos em detalhes. “Olhos costumam exigir maior atenção, pois revelam a expressão que se quer passar. As mãos também são difíceis, por serem uma continuidade do olhar”, complementa Thiago.

Vivacidade e autoconhecimento

Impossível não reparar as cores marcantes que o artista aplica nos painéis. A opção por tons fortes faz parte da essência do grafite, revelando sua ousadia, energia e juventude. Ele encontrou na prática um meio de equilibrar as nuances, testando, experimentando e aprendendo enquanto criava. Ao mesmo tempo, fazia um exercício de autoconhecimento. Afinal, quanto mais o artista sabe sobre si mesmo, mais perto fica de alcançar o estilo próprio. “É o que a gente chama de caminhada na cultura do grafite”, ressalta.

Sua caminhada, porém, começou ainda na infância. Filho de um desenhista, foi criado em um ambiente que valorizava a arte. Desde cedo, visitava galerias e assistia a peças de teatro, tendo contato com outras manifestações além da pintura. Estava inserido, dessa maneira, em um cotidiano que o preparou para ser um artista abrangente.

Do ponto de vista conceitual, Thiago é autodidata. Entretanto, na faculdade de design gráfico aprendeu questões técnicas que o fizeram alavancar a carreira. Estão nessa lista conhecimentos mercadológicos, organização do trabalho e gestão de projetos. E é assim, bebendo de diversas fontes, que o nome Valdi-Valdi vai ganhando notoriedade. Afinal, ele não é – e nunca será – do tipo que cultiva limites.