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26 fev 2020

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Um espírito aberto em meio à criação e à inspiração

Como a diretora de criação de uma indústria moveleira encara as diferentes perspectivas sobre o processo criativo em busca de conteúdos relevantes. Passado, presente e futuro – e muita pesquisa – entram em uma ótica na qual se mostram indissociáveis e determinantes na construção de novos contextos.

O dia seguinte à visita de uma feira pode ser, para a maioria das pessoas, um dia normal que significa a volta ao cotidiano. Não para Claudia Silvestre, idealizadora da Formus Movelaria + Arte, de Tubarão. Para ela, é o momento de sintetizar toda a informação recebida no evento. Entra em cena então a criação de cadernos com colagens, croquis e anotações. É a maneira que a profissional encontrou de evitar que toda a bagagem recebida se esvaeça. Constrói narrativas de perspectivas que estava tendo dos materiais e do que tinha visto. “O fato de você organizar isso te internaliza muito a informação. Ajuda bastante. É um tipo de processo de pesquisa”, ressalta.

Essa situação mostra parte do rico e denso universo que é o processo criativo de Claudia – estendido para a Formus e para o seu estúdio de criação. Há uma área da empresa totalmente dedicada ao tema, chamada de Celeiro + Silo. O local era uma cantina de vinho que pertencia à sua família. Após o fechamento, o lugar foi ressignificado – e o nome celeiro surgiu por ser onde seriam cultivados novos produtos e negócios. O espaço ao lado, com grandes estruturas de tijolos, recebeu o nome de silo, em uma analogia às sementes e à colheita. “Precisávamos de um ambiente que inspirasse, pois a musa não vem no caos”.

Ao entrar no local, sente-se uma cativante atmosfera de trajetórias e lembranças que origina uma confluência do passado, presente e futuro – representando a possibilidade de continuar uma história. O sentimento de coletividade fica exposto em cada canto, como uma característica marcante do processo criativo predominante na empresa. Claudia é coletiva em sua natureza de ser, reunindo diversos olhares e pontos de vista para tornar seu processo criativo mais rico. Nesse contexto, não há certo ou errado; o que mais importa é a conexão entre os seres humanos enquanto seres criadores. Para ela, o atual momento é de transição, no qual a criação é determinante. “Temos que criar tudo, inclusive e principalmente o futuro que a gente quer”. Por essa razão, são grandes os desafios, repletos de complexidade – de modo que coletivamente há mais chances de ser assertivo.

Confortável em tempos de mudança, Claudia entende que o atual período representa uma grande oportunidade de criar e imaginar o futuro. “Transformação é a alquimia da criação”.

PENSAMENTO ABERTO
Ser transversal é uma das características mais vibrantes da criação, de acordo com Claudia. Dessa maneira, os insights podem vir de qualquer local ou momento. É algo então que demanda atenção constante a áreas diversas, mantendo sempre ativa a curiosidade e a vontade de aprender. Algo visto na rua, ou em uma ida ao supermercado, pode ser o embrião de uma nova ideia. Entretanto, por ser gigante a quantidade de informação disponível, é preciso estabelecer prioridades – dividindo-se em mergulhos e sobrevoos. É uma referência a olhares mais aprofundados e a abordagens superficiais, já que não é produtivo ficar tempo demais em apenas um deles. “Você precisa separar um do outro. Temos de desenvolver a habilidade de ver o que é relevante ou não”.

Aprender tal tarefa se torna ainda mais complicado pelo fato de que, em geral, as pessoas são educadas a separar tudo em certo ou errado. Do ponto de vista da criatividade, é algo que tende a ser um obstáculo. “Por que duas coisas não podem acontecer ao mesmo tempo? Por que não posso ser uma artista e uma industrial também?”, indaga Claudia, lembrando que esse caráter anfótero é uma espécie de transgressão que pode sim ser realidade.

Nesse contexto, ganha evidência um modelo orgânico, de ecossistema – em oposição a uma obsoleta era de segmentação, mecanização e pensamento predominantemente racional. Claudia entende que a humanidade já possui um pensamento quântico, no qual os ecossistemas alimentam uns aos outros. O próprio Celeiro da Formus é encarado dessa maneira. Tem uma unidade de manufatura, mas também muita pesquisa. “Podemos levar o conteúdo que geramos para outros stakeholders, como a academia ou fornecedores”, comenta a profissional. Ela entende que essa é a base inclusive de um modelo digital, citando o entendimento do futurista Tiago Mattos de que ser digital não é apenas ter aplicativos ou lojas online, mas sim um modelo de organização capilar. Nele, há mais possibilidades, fomentando negócios, parcerias e relacionamentos, por estar mais aberto a oportunidades em diferentes meios.

“Vamos estudar mais na frente o atual momento como um período de mudança de era, como foi a idade média, moderna e contemporânea. Quem sabe uma idade quântica está vindo aí”.

CONSTRUINDO REPERTÓRIOS
A relação entre pesquisa e criatividade é intensa a ponto de a existência de uma depender da outra. Sem pesquisa, os repertórios não são alimentados e não há conteúdo ou conceito. Seria somente a reverberação de algo que não se sabe se tem valor ou não. É aí que entram os cadernos de colagens citados no começo do texto. Não há a preocupação de desenhar bonito, mas sim de registrar, retendo as informações e pensamentos mais interessantes. É um processo que vai educando o próprio olhar, criando um repertório denso que dará maiores possibilidades de ter insights mais interessantes.

Nesse sentido, Claudia reforça a necessidade de estudar movimentos que estão acontecendo em diferentes áreas. Entram no radar, por exemplo, mudanças que estão acontecendo na culinária. Há uma maior procura das pessoas por tubérculos e grãos, uma busca por elementos naturais, brutos, como acontece na cerâmica também. Em ambos os casos, denota um resgate da conexão com a mãe-terra. “Estamos novamente olhando e nos aproximando do coto”.

De fato, a pesquisa é uma das paixões de Claudia. Porém, não é um processo entendido apenas como uma tentativa de tentar compreender o que está na moda. Para ela, as tendências nada mais são do que anseios da civilização que ainda estão brotando. Quem então tiver a habilidade de detectar tais movimentos e levá-los a determinados cenários, estará cocriando um futuro. “O fato de você estar olhando o amanhã já hoje, está mudando o meu presente”, destaca Claudia. Por essa razão, ela e sua equipe são muito atentos a grandes publicações de pesquisas de cenários, com dados relevantes que possam lhes render mais repertório – que também fomentará a criatividade.

As indagações sobre passado, presente e futuro levaram Claudia a criar uma expressão chamada arqueologia do futuro. O termo sintetiza o ato de identificar todos esses movimentos e sinais que estão acontecendo no presente momento. A questão é que a maioria das pessoas não foi educada para perceber tais sinais – e muitos deles já estão acontecendo. Para a profissional, a arqueologia é então compreender quais indícios são esses, enquanto pesquisadora e diretora de criação de uma indústria moveleira. “Se não apresentarmos produtos e soluções alinhados com o momento, estaremos no passado”, diz. Isso levaria a outra consequência negativa: o fato de a matéria-prima não ser honrada. Como é um recurso finito, deve carregar em si essa conscientização, de evitar desperdícios em todos os níveis. É algo que gera perguntas sobre o produto estar dignificando ou não o trabalho e a energia do material. “E está auxiliando quem vai utilizar? Por isso, a importância da pesquisa, para responder tudo isso”.

OS CAMINHOS DA INSPIRAÇÃO
Um processo de conexão de algo maior com nós mesmos. Essa é uma das maneiras que Claudia entende a inspiração. Sim, apenas uma das maneiras, pois considera o tema complexo o suficiente para não haver apenas uma resposta certa. É então um canal que em algum momento a pessoa acessa um todo, ao qual muitos atribuem a divindades. Entretanto, a inspiração não é só um canal mental, pois também pode vir da matéria, de um contato, toque ou relacionamento. Seja qual for o caso, a inspiração é uma ponte. “Uma ligação de uma energia com algo, que pode ser no contato do outro ou não. Uma conexão, a qual vai depender de estarmos com as antenas ligadas”.

Como a inspiração está atrelada à criação, é preciso haver um estado de mente aberta, com a curiosidade sempre ativa. Porém, a musa não vem apenas porque existe um interesse em criar. Deve haver um propósito. Claudia cita o exemplo dos artesãos, que possuem um nível diferenciado de conexão com os materiais os quais lidam. “Existe um amor nesse contexto, em uma dimensão que envolve toda essa conexão”, diz a profissional, sendo ela mesma um exemplo de quem cria com a mente e o coração.

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