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04 jun 2020

ENTREVISTA

ENTREVISTA

Atípico: a mente artística e inquieta do arquiteto Thiago Mondini

Música. Arte. Arquitetura. Para a mente criativa e inquieta do arquiteto Thiago Mondini, não há limites para a expressão de seu repertório – uma verdadeira miscelânea que passeia com leveza da música erudita ao urbanismo social.

A arte é intrínseca a Thiago Mondini, mas engana-se quem pensa que o ofício de arquiteto seja a única razão da sua da relação íntima com o belo. Além de mestre na arte do espaço – a arquitetura –, o blumenauense domina também a arte do som: a música. A cada nota no piano e linha desenhada no papel, música e arquitetura surgem como parte de quem ele é – ambas frutos da intensa disciplina, uma marca forte da sua personalidade.

A música se faz presente em cada traço dos projetos que Thiago assina – e não poderia ser diferente, já que a paixão pelas duas corre nas suas veias e a técnica para cada composição, seja musical, seja arquitetônica, está gravada na memória do arquiteto. “Na música, tanto na composição quanto na execução, sempre existe um cuidado em dar acabamento às ideias, bem como em não nos tornarmos repetitivos. Toda solução que se repete demais em uma mesma música ou em músicas de um mesmo compositor corre o risco de se tornar enfadonha, previsível e até mesmo cafona. Aprendi com a música a ter vontade de pesquisar soluções e evitar repetições. Se for para repetir, que seja variando minimamente a ponto de surpreender”, provoca.

Nos projetos, a musicalidade também aparece de uma maneira não tão direta: para escrever uma melodia ou para interpretar uma composição, é preciso ter muita paciência e dar tempo para as ideias se construírem. Na arquitetura, também é assim: “As ideias não aparecem em uma hora ou em cinco minutos. Elas são elaboradas num processo de síntese que o cliente muitas vezes nem imagina que existe. Os melhores projetos são aqueles que foram pensados pelo tempo certo e na ordem correta”.

O arquiteto enxerga a relação entre as duas artes em diversas esferas. “Arquitetura e música lidam com exatamente o mesmo universo: forma, tema, harmonia, contraste, ritmo, tempo, desenvolvimento, apenas para citar alguns elementos. A diferença é que a arquitetura faz uso desse conjunto para criar estruturas concretas, visíveis e palpáveis, enquanto a música produz, a partir desses recursos, obras etéreas, invisíveis e efêmeras”, argumenta. Para Thiago, com a reprodução da música gravada, as pessoas deixaram de compreender que a música só existe no exato instante em que está sendo tocada. Antes e depois disso, existe o nada: “Ela está escrita, mas depende de alguém para acontecer de fato. Já a arquitetura tem como hábito ser muito mais perene, podendo até mesmo ser concebida como monumento de sua época”.

A relação de Thiago com a música começou ainda no berço, quando a música erudita ecoava pelos corredores de casa. Aos cinco anos, surgiu a vontade de arriscar as primeiras notas no piano. Aos nove, o instrumento já fazia parte da rotina. O gosto pela música foi incentivado pela família, que o presenteou com uma enciclopédia infantil da década de 1940, que continha um volume dedicado à primeira arte. “A parte que mais me interessava era a das biografias dos principais compositores eruditos: Bach, Haendel, Haydn, Mozart, Beethoven, Chopin, Liszt, Brahms, Grieg, Rachmaninoff e assim por diante. Cresci lendo essas coisas, estudando piano e brincando com arquitetura”, relembra. Em um determinado momento, Thiago decidiu que o melhor caminho seria manter a música como um hobby levado a sério e investir na arquitetura como profissão. Desde então, a música tem um papel secundário na sua vida profissional, mas mantém um papel principal na vida pessoal – uma relação que o inspirou a deixar um legado na cidade onde nasceu.

Em 2010, Thiago fundou o Clube do Piano, com o pianista Paulino Junkes, um dos colegas das aulas de piano no Teatro Carlos Gomes, em Blumenau. “Notamos que existiam dois colegas muito jovens e muito talentosos, o Bruno Theiss e o Vitor Zendron. Na época, eles tinham 14 e 12 anos, respectivamente. Então, convidamos esses colegas para encontros semanais no Teatro, com objetivo de estudar em conjunto”, conta. Os músicos tocavam uns para os outros com a condição de que todos opinassem.

A ideia deu tão certo que logo evoluiu para apresentações anuais. Esses recitais tornaram-se um marco cultural em Blumenau, pois cativaram um público específico para esse nicho. Com a iniciativa, a presença do público em recitais de piano passou a ser quase dez vezes maior que a média dos eventos anteriores. “Com os Concertos do Clube do Piano, pude realizar alguns sonhos daquela criança que ouvia música erudita nos LPs, particularmente tocar a dois pianos o ‘Carnaval dos Animais’, do compositor francês Camille Saint-Säens, e a ‘Rapsódia em Blue’, de George Gershwin”, recorda. O último evento do Clube foi há dois anos, mas as melodias do projeto ressoam até hoje: atualmente, Vitor mora na Alemanha e Bruno nos Estados Unidos, onde continuam seus estudos de piano – um orgulho para Thiago, que acompanha com carinho a trajetória dos colegas.

REPERTÓRIO SINGULAR

Para Thiago, suas criações são resultado de muita pesquisa e reflexão a respeito do que será proposto, principalmente em uma época em que há um bombardeio de informações visuais a todo momento. Por isso, é importante filtrar os conteúdos e saber onde buscar novidades. “Meu maior medo é o de cair no lugar-comum. Hoje, vemos muitos profissionais reproduzindo estilos ou tendências em vez de pesquisarem um estilo próprio. Ou seja, buscam se diferenciar, mas fazem isso se inspirando diretamente em trabalhos de outros profissionais e, às vezes, até reproduzindo ao pé da letra”, explica. O arquiteto acredita que haja um outro caminho para pesquisa – mais difícil, porém mais recompensador: “É lógico que temos que estar alinhados com o trabalho dos profissionais contemporâneos, saber o que produzem e como pensam. Mas precisamos buscar nossas referências fora da arquitetura. Isso faz com que se construa um conjunto próprio”.

Nesse contexto, sensibilidade e técnica se unem em perfeita harmonia no processo criativo do arquiteto, que não acredita na reprodução exata do pedido do cliente, mas na compreensão do seu universo e da tradução, à sua maneira, daquilo que ele pensa, pretende ou deseja. “A arquitetura é sempre um olhar de um terceiro sobre algum assunto. O resultado dessa abordagem é que cada trabalho se torna único e específico para aquela pessoa, família ou lugar. Não acredito na repetição de padrões. Cada pessoa carrega um universo próprio”, diz.

Dessa forma, Thiago avalia as entrelinhas: a maneira como ele se expressou, aquilo que omitiu, seu modo de vestir, entre outros detalhes que o ajudam a compor esse universo particular. Baseado nessa leitura, o arquiteto faz diversas pesquisas, de artes plásticas a fotos de viagens e referências de arquitetura contemporânea e antiga. Assim, filtra os elementos que vão compor o projeto. Em seguida trabalha com layout e determinação de eixos de composição. “A estruturação de eixos num projeto é a principal etapa de organização dos espaços. Sem isso, não consigo criar o que acontece ao redor”, conta. Depois dos eixos estabelecidos, começa a etapa de composição do projeto em si, quando todas as referências se convertem em uma pesquisa de objetos disponíveis no mercado ou criados sob medida.

Além das obras residenciais e comerciais que predominam no seu portfólio, o projeto de renovação da Praça do Estudante, em Blumenau, é uma das propostas que merecem destaque, tamanha a sua contribuição para o urbanismo da cidade. “Todo arquiteto sonha com a possibilidade de interferir na escala urbana. Ter um projeto que todos vão utilizar, ainda que não conheçam a autoria, é um grande prazer e uma grande responsabilidade”, recorda.

O projeto foi feito a pedido da Foz do Brasil, empresa do grupo Odebrecht, e realizado com coautoria da arquiteta Carolina Nunes. A empresa precisava utilizar a praça para uma obra e a prefeitura de Blumenau solicitou que, em contrapartida, fosse elaborada a revitalização do espaço: “Foram meses de trabalho para identificar os eixos, necessidades e possibilidades. Identificamos os percursos principais e partimos o projeto a partir desses percursos. Hoje, fico muito feliz ao ver a praça sendo utilizada exatamente da maneira como tínhamos concebido”, comemora.

CIDADÃO DO MUNDO

Boa parte do repertório de Thiago é, também, construído a partir das suas viagens – para o arquiteto, algo imprescindível para quem trabalha com criação e para qualquer pessoa que deseje ampliar seus horizontes e seus conhecimentos. Mas para isso não basta “viajar sem sair da bolha”, com padrões, hábitos e julgamentos na mala, explica o arquiteto. “É preciso viajar com a mente aberta, estar disposto a conhecer novas culturas, entender que o mundo em que eu vivo não é o mundo em que o outro vive. Só assim adquirimos conhecimento e desenvolvemos um olhar”, acredita.

O espírito livre já o levou a diversos roteiros não programados: “Normalmente são os roteiros que me escolhem, seja por um convite de amigos, promoção inesperada, premiação”. Desta forma, já visitou muitos lugares, como a Ilha de Páscoa, no Chile, e Chicago, que “une desenho urbano e arquitetura incríveis com um povo super receptivo e agradável”, conta. As aventuras pelo mundo podem ser acompanhadas nas redes sociais, que são um diário da vida de Thiago, além de vitrine para o trabalho do arquiteto.

Além de falar sobre viagens, música e arquitetura, Thiago produz conteúdo sobre cerâmica – um hobby recente que já virou parte da sua rotina. Apesar de trabalhosa, a produção é totalmente autoral e mostra o lado B do arquiteto – um prato cheio para quem valoriza conteúdo autêntico. “É quase um paradoxo que, numa era em que se valoriza tudo aquilo que é impessoal, a grande diferença é a completa personalização do conteúdo. Mas este tem sido o caminho. E conteúdo, neste caso, é ter o que falar ou ter o que mostrar em relação ao trabalho”, diz.

Tanta dedicação é reconhecida em premiações. No ano passado, Thiago recebeu o primeiro lugar na categoria Cozinha do Concurso Técnico NCD e, em 2016, o terceiro lugar na categoria Living do mesmo concurso. Nos próximos anos, a ideia é manter meu escritório pequeno, focando em qualidade em vez de quantidade: “Quero ter tempo para arquitetura, música, cerâmica, viagens e amigos. Para isso, é preciso saber dosar o trabalho”.

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