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03 dez 2020

ARQUITETURA

ARQUITETURA

Ah! Floripa

“Um pedacinho de terra perdido no mar”. A composição de Carlos Alvim Barbosa, o Zininho, eternizou seu amor por Florianópolis e embala, até hoje, histórias vividas na capital catarinense. Escrita em 1965, a canção “Rancho de Amor à Ilha” foi eleita hino da cidade que é mundialmente conhecida pela beleza natural de suas praias — tantas que não há consenso no número total dos destinos litorâneos.

Há quem diga que, entre a Ilha de Santa Catarina e o continente, existem 42 praias, mas há aqueles que juram ter visitado cerca de 100. Além dos passeios à beira do mar, a cidade apelidada carinhosamente de Floripa oferece passeios que narram a História do estado, como os fortes construídos no período colonial; festas para todos os estilos, que agradam até os baladeiros mais fervorosos; e uma gastronomia típica para experiências gastronômicas inesquecíveis.

Além dos passeios mais conhecidos, os traços arquitetônicos dos bairros mais tradicionais também levam a um roteiro cheio de encantos com visitas a igrejas centenárias e casarios – um prato cheio para quem é apaixonado por turismo histórico. “A arquitetura simples, primária e nativa cria uma conexão com as nossas raízes culturais”, acredita a arquiteta Juliana Pippi, que é apaixonada pela região da freguesia no sul da Ilha, onde casarios mostram a herança portuguesa do tempo em que o município se chamava Nossa Senhora do Desterro.

Um time de arquitetos que vive a cidade contou quais são seus pontos preferidos pela Ilha, com particularidades e segredos que só quem cria uma relação profunda com os espaços, a cultura e as pessoas pode transmitir. As dicas são preciosas para visitas feitas em todas as estações, não somente no verão – afinal, imergir em um contexto rico, saborear a culinária típica e conhecer a história por meio da arquitetura não tem época.

HISTÓRIA ENRAIZADA

A arquitetura tradicional que permanece viva no Ribeirão da Ilha, na região sul, faz com que a arquiteta Juliana Pippi sinta-se conectada às suas raízes. A paixão é antiga: na época da faculdade, foi lá a primeira saída de campo para um trabalho de desenho a mão livre, levando a um amor à primeira vista. O bairro é originalmente reduto dos pescadores artesanais – prática que é cultivada até hoje em poucos locais que resistem para manter a cultura local em meio a inovações tecnológicas no mercado de pesca.

Quando os amigos a visitam, Juliana faz questão de mostrar a eles a essência da cidade em um de seus roteiros favoritos, que inclui um passeio despretensioso para contemplação dos imóveis que expressam a força da cultura açoriana, a apreciação da gastronomia local – especialmente, os diferentes pratos com ostras, que integram a culinária manezinha – e a renovação das energias em meio a beleza natural de um dos destinos mais encantadores que a Ilha oferece.

A FORÇA DA CULTURA LOCAL

O Norte da Ilha é mundialmente conhecido pelas suas festas que atraem famosos na alta temporada. Mas não é só de beach club que vive a região. Quem aprecia a calmaria, a natureza e a cultura local se encanta por Santo Antônio de Lisboa – um bairro tradicional que mantém a sua essência por meio da valorização do artesanato, da culinária típica, dos espaços públicos abençoados pela beleza do mar que têm o pôr-do-sol mais icônico de Florianópolis.

Visitar o local aos domingos, em longos passeios em família que começam no almoço e são arrematados por um café com a brisa do oceano como companhia, é um costume da arquiteta Carina Beduschi. “Nós chegamos sempre de manhãzinha para curtir ao máximo o dia, passar tempo nos redutos dos artesãos, sentar e apreciar com calma os pratos incríveis dos restaurantes típicos e criar memórias com a família”, sugere.

PASSEIOS HISTÓRICOS

A arquitetura preserva a história ao reunir os cenários de episódios que marcaram a cidade, como a Fortaleza de São José da Ponta Grossa, um dos pontos que narram esses acontecimentos. Para o arquiteto Robson Nascimento, o destino é único e merece ser visitado na região norte, não só pelas estruturas centenárias e pelos canhões que integravam a triangulação de segurança com outros dois fortes, mas pela exuberância das trilhas e da troca com personalidades locais, como os pescadores que proseiam por horas a fio enquanto apreciam pratos com frutos do mar que atraem turistas de todos os cantos.

A busca por uma arquitetura afetiva, que vá além da funcionalidade, proporcionando novas vivências e interações ao mesmo tempo em que valoriza a história dos moradores, é um desejo compartilhado pelas arquitetas Carine Beduschi e Juliana Pippi. O contato com as raízes em seus pontos preferidos na cidade – coincidentemente, locais que têm o artesanato como parte de suas essências – é prova disso.

A vivacidade das cores e os contrastes que marcam a estética local aparecem tanto na arquiteturra histórica quanto nas peças feitas a mão por artesãos. Essa força vital dos bairros opostos – no norte, Santo Antônio de Lisboa; no sul, Ribeirão da Ilha – inspira as profissionais nas suas dicas de passeio.

A apreciação da cultura local contribui para a valorização dos profissionais nativos, que mantêm vivos os costumes passados de geração para geração. Por isso, são destinos irresistíveis, tanto do inverno quanto no verão.

RESTAURAR PARA RECORDAR

Se existe um lugar que simboliza a energia florianopolitana, esse lugar é a Lagoa da Conceição. Por ser um dos bairros mais plurais da cidade, em poucas horas é possível observar a permanência de elementos da cultura local com variações externas, que colaboram para a vibração cosmopolita da região.

Quem busca calmaria em meio aos encantos da natureza é presenteado com cenários de tirar o fôlego – entre eles, um cantinho protegido que só pode ser acessado de barco ou por trilha, proporcionando uma desconexão que atrai frequentemente o arquiteto Marcelo Salum.

O passeio começa na ida até o local, com três caminhos fascinantes, entre eles, por via marítima com saída da avenida das Rendeiras, uma rua bem tradicional. Foi lá onde passei as últimas três viradas de ano – momentos simbólicos compartilhados com meu namorado e meus amigos, que tiveram como cenário esse charme particular, com boa gastronomia e contato com a natureza, longe da correria do dia a dia”, conta.

A relação da arquiteta Cris Passing com a beira-mar norte é antiga. Começou ainda na infância, quando passava diariamente pela avenida central com o seu pai a caminho do restaurante da família. Hoje, a ponte Hercílio Luz – o principal cartão turístico da Ilha – está aberta para visitação após décadas de obras que a mantiveram fechada.


Essa ressignificação do espaço devolveu à comunidade um dos de seus pontos mais tradicionais: agora, com uma proposta que valoriza a relação das pessoas com a cidade. “Passeios por ela são bem agradáveis, mas o que mais gosto são de fotos que a têm como pano de fundo. Um cenário lindo para registrar momentos”, sugere a arquiteta, que costuma frequentar a orla na companhia dos pets, aproveitando a brisa do mar e a beleza natural da capital catarinense.

PELOS ENCANTOS DO CENTRO

Há quem prefira os passeios com ares urbanos, onde o cotidiano de trabalho se mistura com os momentos de lazer em uma sintonia que só quem ama a cidade entende. Em Florianópolis, esse lugar é o Centro, onde fica o mercado público – repleto de opções gastronômicas para apreciação da culinária local, dos pastéis de berbigão e camarão à tainha com pirão de caldo de peixe, pratos indispensáveis para quem pretende imergir na cultura florianopolitana.

O Largo da Alfândega é uma das áreas com maior circulação na região central. Recentemente, o espaço foi revitalizado, um processo que transformou a cena turística de um dos redutos mais tradicionais da capital. A obra recebeu uma estrutura metálica coberta que reproduz as rendas de bilro açorianas – uma homenagem ao artesanato tradicional.

Para o jornalista Rodrigo Stüpp, manezinho que cultiva uma relação intensa com a cultura ilhoa, essas mudanças refletem também na relação dos nativos com Florianópolis. “É um patrimônio emocional. Precisamos conhecer a simbologia para trabalhar o pertencimento e o orgulho”, acredita. Apesar do turismo de sol e mar ainda ser o principal, Rodrigo, que comanda o famoso Guia Manezinho, sugere um mergulho na região central para conhecer a fundo a magia que permeia a cidade: “A minha praia é contar as histórias de Floripa”.

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