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24 jun 2021

DECORAÇÃO

Invasão italiana
DECORAÇÃO

Invasão italiana

Para além das fronteiras, o design italiano se destaca em todos os setores. No moveleiro, não é diferente. Oh, mio Dio! Seria a água da Fontana di Trevi o segredo de tamanha grandeza?

Foto: Kacio Lira

A arte pulsa nas veias do povo italiano. Pelas mãos de Leonardo Da Vinci, nasceu Mona Lisa; da mente de Antonio Vivaldi, as Quatro Estações, concertos que são ícones barrocos. Do universo da moda, surgiram os irmãos Gianni e Donatella Versace, Giorgio Armani e tantos outros estilistas que marcaram gerações nas passarelas. A lista de mentes brilhantes originadas no país europeu é longa. Na arquitetura e no design, a história se repete: a Itália presenteou o mundo com gênios que ousaram nas formas, exploraram materiais e transcenderam como criadores.

Afinal, qual é o segredo do sucesso? A localização privilegiada do país na região onde era o Império Romano, berço da civilização ocidental, explica a longa bagagem cultural herdada pelos artistas. Há quem diga que o mantra “dolce far niente” — em português, a agradável ociosidade —, inspira a criatividade e estimula a imaginação: com a mente vazia, novas ideias são formadas. Talvez a resposta seja uma combinação de todos esses fatores. Inegavelmente, os italianos ditam as regras do jogo quando o assunto é design.

Projetado pelos arquitetos italianos Manzoni e Tapinassi, o sofá Tempo possui um design atemporal e sofisticado. Os pés têm um acabamento em metal escuro revestido. A costura contrastante está opcionalmente disponível na versão estofada de couro. Foto: Kacio Lira

Um dos caminhos para compreender esse fenômeno é traçar uma linha do tempo e visitar o perfil e as criações de alguns gênios que conceberam, ao longo da história, as peças icônicas que revolucionaram o design. No século passado, eles encontraram na arte o sopro de vida no pós-guerra, quando tudo parecia perdido. Hoje, o talento e o suor que fazem parte do processo criativo reverberam nas obras contemporâneas. Passado e presente se unem — um com a tradição, outro com a tecnologia — para fazer jus ao status de nação artística conquistado pela Itália.

Foto: Kacio Lira

A originalidade e expressividade do arquiteto Maurizio Manzoni e a considerável experiência do professor Roberto Tapinassi se uniram em 2001 para formar uma parceria profissional entre as mais notáveis da Itália. Desde o início, os dois designers compartilharam uma visão comum da vida contemporânea, desenvolvendo soluções inovadoras de acordo com uma tradição italiana dedicada à pesquisa de ponta.

Com fortes referências italianas, Lina Bo Bardi chega ao Brasil e cria grandes ícones da arquitetura e do design nacionais, como o Museu de Arte Moderna de São Paulo (MASP) e diversas peças de mobiliário.

O design italiano foi precursor. Da moda, passando pelas artes plásticas até chegar à indústria automobilística e, principalmente, quando o assunto são peças de mobiliário e decoração, a inovação é intrinsecamente ligada a artistas e designers e marca a história do país que recebe milhões de visitantes todos os anos para apreciar alguns dos maiores eventos voltados para as mentes criativas, como o Salão do Móvel de Milão. Assim como as formas, o uso de materiais, a singularidade e o vanguardismo impulsionaram a caracterização reconhecida em todo o globo.

Foto: Happy Interior Blog

Como não há fronteiras para apreciar o belo, a criação se expandiu para outros países — dando origem ao “made in Brazil com alma italiana”. Com uma dose de ópera e outra de samba, a arquiteta Lina Bo Bardi representa essa conexão ítalo-brasileira. Na década de 1940, chegou a São Paulo com o seu marido, Pietro Maria Bardi. Desde então, nunca mais deixou o país, onde concebeu suas principais obras, como a Casa de Vidro, em 1951.

Ponto de encontro importante para a cultura nacional, a Casa de Vidro foi a residência do casal Lina Bo e Pietro Maria Bardi por mais de 40 anos, onde a cultura ítalo-brasileira se materializou. Ganhou este nome por sua fachada imponente de vidro que parece flutuar sobre pilares. Foto: Instituto Bardi

Considerada ícone da arquitetura moderna no Brasil, a Casa de Vidro foi o primeiro projeto construído da arquiteta. O loteamento da antiga Fazenda de Chá Muller Carioba, na região do Morumbi, em São Paulo, foi o local escolhido para construção, iniciada entre 1950 e 1951. O jardim, que ocupa uma área de sete mil metros quadrados, expressa o amor do casal pela riqueza natural brasileira. Cuidadosamente planejado e plantado pela própria Lina, a vegetação rasteira da época se transformou em floresta particular, com trilhas decoradas com pedras e cacos de cerâmica.

Espreguiçadeira projetada para Casa Valéria Cirell, após 1958.

Além de marco arquitetônico, o espaço se tornou ponto de encontro de artistas, arquitetos e intelectuais. Grandes nomes Max Bill, Steinberg, Gio Ponti, Calder, John Cage, Aldo van Eyck e Glauber Rocha encontravam na residência do casal Bardi o cenário ideal para discussões culturais, ideológicas e sociais. Hoje, constitui espaço de pesquisa e troca de ideias entre pesquisadores, profissionais e estudantes do Brasil e do exterior como a sede do Instituto Lina Bo e P.M. Bardi.

Cava é a expressão de uma forma estética e de um estilo ambicioso contemporâneo. Foto: Kacio Lira

Os dias de glória dos brilhantes designers italianos não ficaram no passado: suas obras-primas continuar a influenciar a inventividade na contemporaneidade. Pelo mundo, é possível encontrar criações de todos os setores, inclusive na América Latina, onde os móveis do país europeu são extremamente valorizados. A Natuzzi, um dos nomes mais conhecidos da indústria mundial de móveis de luxo, importa e produz suas peças no Brasil. Conhecer os bastidores desse processo é compreender como funciona o caminho de cada item que compõe os projetos que amamos.

Criador do sofá Cava, Mauro Lipparini é um arquiteto eclético e designer que expressa sua criatividade em todas as áreas: projetos industriais, arquitetura de interiores, instalações e estudo de produtos. Foto: Kacio Lira

A definição da coleção leva em consideração aspectos locais como clima, perfil dos consumidores, tipos de residência, faixa etária e estilo predominante. Para isso, o gestor de negócios da marca Marcos Rogério Colet, que atua no continente sul-americano, mantém contato frequente com o Centro de Estilo em Santeramo, na região da Puglia. Assim, o design originalmente italiano chega ao país.

Foto: Kacio Lira

A Itália influenciou seus conterrâneos europeus na criação artística e também no design, como a Holanda. Parceiro da Natuzzi Italia, Marcel Wanders é um importante ateliê de design de produto e interiores em Amsterdã. Entre suas peças assinadas para a marca italiana está o sofá Skyline, feito a partir de um sistema modular, que cria uma enorme variedade de composições lineares e de canto usando uma combinação de módulos de base aberta e fechada.

Forma e função coexistem em sublime harmonia no sofá Cava, criação de Mauro Lipparini. Foto: Kacio Lira

Giovanni Ponti, conhecido como Gio, foi um dos mestres italianos da arquitetura e do design, assim como ensaísta reconhecido. Além das grandes obras arquitetônicas que carregam sua assinatura inconfundível, desenvolveu um vasto portfólio no setor moveleiro. Vanguardista no design industrial, concebeu projetos de mobiliário e utiliários, como máquinas de café expresso, de costura, peças de iluminação, impressões para tecido e cerâmica. Aventurou-se, até mesmo, nos setores naval e automobilístico. Multidisciplinar, redefiniu as rotas de criação.

Visionário do século 20, Gio Ponti empregou sua genialidade em criações modernas e democráticas, conceito alinhado com as mudança de paradigma da época.

Entre a dualidade nas suas influências — bebeu da fonte do movimento conservador neoclássico, o Novecento Italiano, e do Modernismo dos anos 1930 —, surgiram obras que promoveram o design no mundo. Ativo por mais de seis décadas, Ponti estabeleceu a identidade italiana na arquitetura e no design. Não à toa, colecionadores cobiçam seu trabalho até hoje: em 2018, uma mesa de centro criada para o salão do baile transatlântico Giulio Cesare, em 1951, foi arrematada por R$ 340 mil.

Marcada por frentes de gaveta pintadas à mão de cor branca com puxadores aplicados em vários tipos de madeira (olmo, nogueira italiana, mogno e jacarandá), a D.655.2 foi desenhada em várias versões no período de 1952 a 1955. Recentemente, foi relançada após uma longa pesquisa no acervo do designer.

A história de Ponti tem um cenário recorrente: Milão, a cidade que respira design. Lá, três casas foram construídas e mobiliadas pelas mãos do gênio. Por dentro e por fora, são marcadas pelo estilo inconfundível do italiano: moradias livres de obstruções, nas quais o mobiliário é reinventado com cores, texturas e um papel híbrido na composição. Assim, promovia “uma nova cultura do habitar e da casa”.

A mesa D.859.1, projetada principalmente para reuniões de até dez pessoas, se destaca não apenas por seu tamanho impressionante — mais de 3,60 metros de comprimento —, mas por seu design simples e refinado. As pernas são notáveis pela modernidade de membros finos, criando uma ponte trapezoidal de um vão único sobre a qual o grande topo cônico transmite a ideia de aerodinâmica.

Através da Domus, a revista de design que fundou em 1928, promoveu curiosidade e uma mente aberta para o design thinking. Como um manifesto, provoca os leitores com novas maneiras de pensar a habitação — dessa vez, no papel. Boa parte do sentimento de revolucionar a arquitetura e o design veio da intuição: alguns críticos afirmam que Ponti era avesso a ideia de metodologias engessadas. Para ele, o design precisava ir além.

Icônica, a cômoda desenhada por Ponti faz parte da coleção privada de uma de suas casas milanesas — precisamente, em Via Dezza. A reprodução da peça leva a criação a outros cenários.

A fruta não cai longe do pé e o designer italiano Claudio Bellini é prova disso. Filho do mestre Mario Bellini, vive e trabalha em Milão, onde dirige um escritório de arquitetura e design fundado em meados dos anos noventa. Palestrante internacional com muitos anos de experiência em ensino universitário, também trabalha com criação para várias marcas líderes globais, como a Natuzzi.

Foto: Kacio Lira

Ambicioso e versátil com um olhar apurado para o design — setor em que é um inovador reconhecido —, Bellini tem paixão por embarcar em viagens que o levam a abraçar diferentes culturas.

O contorno da cama Piuma, criação de Claudio Bellini, se destaca por um detalhe original: o folho que corre ao redor dela. Foto: Kacio Lira

Ex-iatista de competição, seu sonho é fazer uma viagem em um planador e depois em uma nave espacial, porque, como Le Corbusier disse uma vez, “voar nos deu uma visão panorâmica, um ponto de vista inestimável a partir do qual podemos observar o mundo amplamente”.

As pernas finas e delgadas em madeira da poltrona Felicità suportam um assento amplo, para criar uma atmosfera suspensa. Na peça assinada pelo time de designers da Natuzzi, as proporções e as formas agem para criar uma atmosfera como se o móvel estivesse flutuando. Foto: Kacio Lira
Uma reinterpretação moderna e elegante da clássica poltrona de clube, a Wally chama a atenção com as linhas suaves e arredondadas da almofada, do assento e do encosto, que proporcionam o máximo conforto e sustentação. Foto: Kacio Lira

Criador de alguns ícones do design italiano, entre eles a luminária de piso Arco, Achille Castiglioni dedicou sua carreira ao desenvolvimento de móveis, iluminação e outros produtos marcados por designs irônicos, alegres, criativos e funcionais que, às vezes, se cruzavam com ideias exploradas por artistas conceituais.

A longa carreira como designer de iluminação, ao lado do irmão Pier Giacomo, exportou seu talento para diversos países, transcendo as fronteiras italianas.

Nasceu em Milão, em uma família com profundo apreço pelas artes, já que era o terceiro filho do escultor e gravador de moedas Giannino Castiglioni. Em 1937, decidiu seguir os passos de seus dois irmãos mais velhos, os arquitetos Livio e Pier Giacomo Castiglioni, e se matriculou na Faculdade de Arquitetura do Politécnico de Milão, mas só conseguiu concluir os estudos anos depois de ser enviado para a Grécia e a Sicília durante a Segunda Guerra Mundial.

Prestes a completar 62 anos, a luminária Arco tem luz direta e indireta, base em mármore carrara branco e braço telescópico em aço inox satinado.

Na juventude, enquanto amargava o período pós-guerra, experimentou no início de sua carreira técnicas emergentes e novos materiais que pudessem comunicar sensibilidade estética necessária para animar o mercado europeu. O foco em design de produto e o profundo vínculo fraterno entre os três irmãos, mais tarde lhe permitiria prosperar.

A mesmice dos lustres provocou a inquietude de Castiglioni e inspirou a criação da Taraxacum 88, valorizando a fonte luminosa no lugar da estrutura.

Achille Castiglioni ganhou o Compasso D’Oro, o maior prêmio italiano de design industrial, nove vezes, além do reconhecimento internacional por meio de premiações de exposições que levaram o nome da Itália para os principais museus do mundo. Só no Museu de Arte Moderna de Nova York (MoMA), são 14 peças assinadas pelo designer.

Com iluminação direta e refletida, a luminária Taraxacum 88 exibe uma estrutura formada por 20 triângulos de alumínio prensado polido. São 120 lâmpadas transparentes alojadas ao redor da peça — uma das obras-primas de Castiglioni.

A provocação esteve sempre presente na sua trajetória: “Tem que haver ironia, tanto no design quanto nos objetos. Vejo ao meu redor uma doença profissional de levar tudo muito a sério. Um dos meus segredos é brincar o tempo todo”.

A base aberta e as linhas quadradas caracterizam o estilo contemporâneo do sofá Ernesto. O apoio de braço reclinável permite alcançar o conforto ideal em todas as posições; o encosto deslizante ajusta a profundidade do assento. Foto: Kacio Lira

Criada pelo centro de estilo da Natuzzi, na Itália, a poltrona Dalt tem um design elegante e simples, com almofadas de assento e apoios de braços dispostos sobre uma base requintada que complementa sua forma.

A base giratória fosca e linear agrega elegância ao contorno da peça. Foto: Kacio Lira

Já o sofá Trionfo é democrático e mostra como o design do país dialoga com as necessidades dos usuários e valoriza a funcionalidade — uma das premissas desse tipo de criação. Com tecnologia arrojada, os três tipos de mecanismos permitem que a peça recline em diferentes locais sem perder a elegância dos traços.

Foto: Kacio Lira

Aos 86 anos, Mario Bellini poderia olhar para trás e se sentir satisfeito com a trajetória absolutamente icônica que traçou em seis décadas de atuação, mas não. Para ele, é chegada a hora de passar para frente seu conhecimento e suas experiências que colaboraram para potencializar a fama italiana em excelência no design.

Seguindo os passos de seu conterrâneo Gio Ponti, Bellini editou a revista Domus, referência em design na Itália, e hoje viaja pelos continentes para palestrar nas principais instituições de design do planeta.

O amplo corpo de trabalho de Bellini abrange arquitetura, planejamento urbano e móveis e design industrial. Embora suas criações fossem menos iconoclastas do que seus designers pós-modernos contemporâneos, eles não eram menos inovadores e são caracterizados por formas originais, orgânicas e tecnicamente complexas.

O sofá Camaleonda é uma criação dinâmica, viva e nada enigmática, que permite um número infinito de configurações, mas mantém sua identidade peculiar e única.

Tamanha a influência do designer fez com que o MoMA dedicasse uma retrospectiva ao mestre italiano, homenageando o trabalho de sua vida e reunindo 25 peças para a coleção permanente. Além de ser o foco de mais duas exposições, Bellini também fez a curadoria de inúmeras exposições de arte, design e arquitetura na Itália e no exterior. Até o momento, ele recebeu oito prêmios Compasso d’Oro, o Medaglia d’Oro — que reconhece a sua contribuição para o design e a arquitetura em todo o mundo, além do Ambrogino d’Oro por mérito cívico e muitos outros.

A poltrona 932, que desconstruiu o conceito de móveis estofados, em 1964, é composta por quatro almofadas independentes presas por um cinto. Há quatro anos, a criação passou por uma reformulação, respeitando o conceito original enquanto atualiza suavemente as proporções e a engenharia.

Fertilidade é palavra-chave no ecossistema italiano. Não à toa, estudantes de todo o mundo largam tudo para investir na carreira em Milão, Santeramo e outras cidades reconhecidas por abrigarem os principais institutos de design do globo e empresas renomadas. O Natuzzi Style Centre é um desses lugares que reúne talentosos arquitetos de interiores, coloristas, decoradores e designers para criarem novos modelos e combinações de desenhos, funções, materiais e cores.

A poltrona Re-vive Lounge apresenta uma superfície acolchoada e delicada com amplo encosto feito de forma artesanal. Foto: Kacio Lira
O mecanismo de compensação oferece um movimento de reclinação natural a quem usa a poltrona Re-vive. Foto: Kacio Lira

Foi esse o time que desenvolveu a poltrona Re-vive: observando o movimento do corpo humano, deram vida à peça que responde intuitivamente aos reflexos dos usuários. Dessa forma, combina a tradição artesanal italiana com tecnologia.

Clássico da Natuzzi Editions, a poltrona Re-vive tem seu design acentuado pelos tons terrosos que marcaram a coleção. Foto: Kacio Lira
Foto: Kacio Lira

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